Por Ricardo Maia
Frequentemente ouvimos a
comparação negativa quando analistas colocam a China como exemplo de
desenvolvimento econômico para o Brasil. O parâmetro é o “pibinho” brasileiro
comparado ao “pibão” chinês, parece até clichê ou uma piada invertida, mas não
é.
O grande problema dos
economistas neoliberais em seus comentários é o intuito de transformar uma
situação econômica controlada numa economia comparada a um grande caminhão
desenfreado indo ladeira abaixo. Mas qual é o preço que se paga por esse tipo
de desenvolvimento? Qual o verdadeiro custo de oportunidade para alcançar essa
meta?
A história nos conta que a China experimentou uma grande virada através de importantes reformas econômicas, principalmente após a morte de Mao em 1976, quando o partido comunista afrouxou o controle governamental sobre a vida dos cidadãos e as comunas populares foram dissolvidas. Estes e demais eventos marcaram a transição da China de uma economia planejada para uma economia mista com um ambiente de mercado cada vez mais aberto e com jeitão capitalista.
Entre 1990 e 2001 o
desempenho econômico chinês retirou 150 milhões de camponeses da pobreza e
manteve uma taxa media anual de crescimento do PIB de 11,2%, desta forma o país
aderiu a OMC naquele ano. Entretanto, o rápido crescimento econômico que tornou
a economia chinesa a segunda maior do mundo, também impactou severamente os
recursos naturais e o meio ambiente do país, além do mais, os benefícios do
crescimento da economia não foram distribuídos uniformemente entre a população,
resultando em uma ampla lacuna de desenvolvimento entre as áreas urbanas e
rurais. De acordo com o Ministério chinês de recursos hídricos, cerca de 300
milhões de chineses não tinham acesso à água potável e 40% dos rios do país
estavam poluídos por resíduos industriais e agrícolas até o final de 2011.
Resumindo, nas últimas décadas, a China sofreu demasiadamente com a grave
deterioração ambiental e a poluição.
O sucesso comercial da
China deve-se principalmente ao seu baixo custo de produção, atribuindo uma
combinação de fatores como boa infraestrutura, nível elevado de tecnologia,
alta produtividade, em muitos casos também o não pagamento de licença
comercial, mas o mais importante está no BAIXO CUSTO DE MAO DE OBRA. Mesmo com
um progresso significativo dos últimos anos, há grandes obstáculos para o
crescimento chinês em longo prazo, a significativa piora da distribuição de
renda é apenas um dos fatores negativos para o desenvolvimento social, onde a
China só perde para o Nepal, entre os países mais desiguais da Ásia e entre os
mais desiguais do mundo. Inclusive, isso já gerou milhares de incidentes em
massa, eufemismo chinês que o governo utiliza, e que nós chamamos de
manifestações.
A china ao mesmo tempo
em que reduziu a pobreza com rapidez histórica e elevou a renda real per capita
em mais de oito vezes entre 1978-2008, o país emergiu como um dos casos de mais
rápida piora na distribuição pessoal e funcional da renda, com o coeficiente
Gini nacional(*) saindo de 0,291 em 1980 para 0,478 em 2008. Antes de
tudo, vale esclarecer que o PIB per capita possui, neste caso, apenas uma
consideração: é possível que o PIB aumente enquanto os cidadãos ficam mais
pobres, e isso ocorre porque o PIB não considera o nível de desigualdade de
renda das sociedades.
Apesar de a China ter
alcançado em 2012 um PIB de mais de U$ 8 trilhões, um crescimento de 7,8%,
existem outras realidades que não são comentadas. O contexto nos permite
refletir e analisar qual o verdadeiro avanço que o Brasil teve e qual a direção
deve-se tomar.

Nos últimos 10 anos, a
economia brasileira foi marcada pela combinação de crescimento econômico e
melhora da distribuição de renda. O PIB per
capita real brasileiro
aumentou 29% e foi caracterizado por uma evolução mais favorável da renda da
população mais pobre.
O Coeficiente de Gini
vem caindo de forma significativa ao longo dos anos 2000, passando de 0,553
para 0,500 entre 2001 e 2011. Esses resultados positivos são complementados por
diversas conquistas no campo da redução da pobreza, do mercado de trabalho, da
educação, da saúde e do acesso a bens e serviços.
O crescimento
econômico trouxe cada vez mais oportunidades de inserção profissional aos
trabalhadores brasileiros. De 2002 a 2011, foram gerados 19,1 milhões de
empregos formais.
Então fica a pergunta:
Por que o Brasil tem um crescimento tão medíocre comparado com a China?
Uma resposta aceitável
seria o regime político de partido único da China, onde as decisões não são
discutidas, mas impostas. Não precisam de apoio popular e democrático baseado
em eleições regulares. Todavia, se formos aceitar esse tipo de argumento
estaríamos afirmando a existência de uma impossibilidade na nossa democracia, o
que é uma inverdade.
Temos aqui a inflação,
grande vilã da discussão e que volta a assustar a todos. Ela tem várias raízes:
as econômicas, as financeiras e tem principalmente as subjetivas, derivadas da
criação da expectativa de sua chegada.
Nunca se pode cessar o combate a inflação, embora uma pequena inflação como preço do crescimento poderia – e
deveria – ser tolerada, desde que, o crescimento lhe fosse superior. Mas entre
nós há inflação real, sob controle, e há uma inflação subjetiva, desejada,
recessivista, saudosa do austerismo especulativo e estéril que só
produz desemprego, queda de poder de compra dos salários, e muita concentração
de renda.
As motivações são
várias, desde evidentes intenções políticas às tentativas de desestabilização
de governo, a desconstituição da parte boa de uma política econômica, a qual,
com erros e acertos, mas que busca o desenvolvimento e principalmente a
distribuição de renda, esta principalmente por intermédio dos reajustes do
salário mínimo.
Precisamos nos convencer
de que essa realidade do dia a dia não é uma tragédia, mas um terrorismo
mediático de um mercado viciado e especulativo.
(*) Medida de que consiste em um número entre 0 e 1, onde 0
corresponde à completa igualdade e 1 corresponde à completa desigualdade



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