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quarta-feira, 19 de março de 2014

Dicas importantes antes de comprar seu carro usado



Até hoje, mesmo há algum tempo longe do mercado bancário de financiamentos de veículos, pessoas me procuram com dúvidas sobre como comprar/financiar um veículo, principalmente o usado, que requer maiores cuidados. Além dos juros que são maiores, existem os riscos  mecânicos por se tratar de um carro usado.
Para quem pretende comprar seu primeiro veículo e ainda não pode comprar um zero km, mais que uma aventura, isto requer alguns cuidados antes da aquisição do seu carrão, para que ele não o deixe na mão!!

Procedência é importante
Antes de fechar o negócio, avalie a procedência do veículo usado, procure lojas conceituadas e com tempo de atuação no mercado de usados. Caso a compra seja direto com o proprietário, identifique se ele é o primeiro dono, isso já elimina boa parte das dúvidas iniciais.
Avalie o usado
Para fazer bom negócio no mercado de usados, é preciso fazer uma boa avaliação do carro. Como o mercado está aquecendo, há até consultores especializados em avaliar automóveis (serviço pago).

Dá para perceber que o carro está muito rodado?
Sim. Nem sempre dá para confiar no hodômetro (instrumento que mede a distância percorrida pelo carro), pois ele pode ter sido adulterado.

Alguns indícios de que o carro já rodou bastante:

§  Manopla de câmbio e volante lisos;
§  Pedal do freio desgastado indica que ele passou dos 70.000 km;
§  Marcas irregulares de desgaste nos pneus, que podem significar falta de alinhamento e problemas na suspensão;
§  Balance o carro segurando o para-choque e depois solte. Se ele continuar se mexendo, é sinal de que os amortecedores estão gastos

Como saber se o motor está bom?

§   Procure vazamentos de óleo (motor muito limpo pode ter sido lavado);
§  Verifique as juntas do cabeçote: elas não podem estar muito limpas (indica que foram lavadas para esconder vazamento) nem sujas de óleo (indício de vazamento). Marcas e manchas de óleo no contorno mostram que foram reapertadas e podem estar empenadas;
§  Se o carro demorar a pegar, os bicos injetores estão sujos;
§  Óleo muito escuro e abaixo do nível também são sinais de que o proprietário é desleixado;
§  Fumaça branca ou azul saindo do escapamento indica que o veículo está queimando óleo.



Como avaliar o aspecto externo de um usado?
§  Pintura recente e ondulações são sinais de que o carro foi batido;
§  Verifique o vão entre partes (como capô, grade ou para-choque); se ele for grande, as peças foram trocadas;
§  Repare se há ondulações nas paredes do cofre do motor; elas indicam que o carro pode ter sido batido (pintura nova nas áreas próximas é outro indício de batida);
§  Parafusos de outra cor em chapas e peças da carroceria também indicam reparos;
§  Cheque se as portas estão desalinhadas;
§  Marcas de ferramenta e arranhões em peças como faróis e lanternas revelam se elas já foram trocadas;
§  Procure pontos de solda além dos originais de fábrica

Fontes: Assovesp (Associação dos Revendedores de Veículos Automotores do Estado de São Paulo), Sindirepa-SP (Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos do Estado de São Paulo), e Bosch.


Financiamento
As opções para financiar um carro novo são: crédito em banco, em banco da montadora, leasing e consórcio.

As taxas de juros variam de acordo com o banco e a modalidade de financiamento. O cliente pode negociar o dinheiro com o banco e comprar o veículo ou fechar um plano na loja, com financeiras ou bancos de montadoras.

Há muitas montadoras que abriram bancos e que operam em conjunto com as concessionárias. Verifique atentamente com a taxa mais vantajosa e as regras do contrato de financiamento.

O que é CDC (Crédito Direto ao Consumidor)?
Fazer empréstimo no banco para comprar o carro. O veículo fica registrado no nome do comprador, mas alienado ao banco, e não pode ser negociado até que sejam pagas todas as prestações.

O que é leasing?
Financiamento em que o veículo é registrado no nome do banco ou da empresa financeira e só pode ser transferido para o comprador depois que todas as prestações forem pagas.

O que é consórcio
O comprador paga cotas mensais e recebe o carro quando é sorteado, se der lance ou no final do contrato, desde que esteja com as prestações em dia.

O que acontece a quem para de pagar o financiamento?
O consumidor pode perder o carro. No CDC, o banco pode entrar com uma ação na Justiça para usar o carro que já está alienado em seu nome. Leiloa o veículo e usa o valor para pagar as parcelas restantes do financiamento (o dinheiro que sobrar é devolvido ao consumidor).

No leasing, como o carro está em nome do banco ou da empresa financiadora, ela tomará o carro do consumidor, que não recebe nada e perde o que já pagou.

No consórcio, o consumidor perde direito ao carro, mas pode ser ressarcido da parte que já pagou, mas apenas no final do contrato.


Fontes: Banco Central do Brasil e Fundação Getulio Vargas

terça-feira, 18 de março de 2014

Menos Batista, menos...




Por Antonio Delfin Netto

Com toda razão, Fernando Henrique Cardoso e seus principais auxiliares festejam o extraordinário sucesso do programa de estabilização monetária - o chamado Plano Real -, viabilizado pela firme determinação do mercurial presidente Itamar Franco, de quem ele próprio foi ministro da Fazenda. Visto 20 anos depois, ele continua uma pequena joia por sua concepção técnica e pela habilidade política e transparência com que foi posto em prática pelo ministro Ricupero.

Foi um ponto de inflexão na condução da nossa política econômica. Resgatou a confiança da sociedade brasileira, profundamente erodida pelos fracassos anteriores: Cruzado 1 (1985) - o mais bem-sucedido "estelionato eleitoral" de que se tem conhecimento na história universal - Cruzado 2 (1986), Bresser (1987) e Verão (1989) no governo Sarney, Collor 1 (1990) e Collor 2 (1991).

Deixaram um inconformismo social que desabou em milhares de ações que, um quarto de século depois, estão sob julgamento no Supremo Tribunal Federal. Infelizmente, ainda não é claro que temos duas questões distintas: 1) se houve dano ao "poder de compra" dos depósitos das cadernetas de poupança, que sejam especificamente corrigidos: a consequência se esgotará no eventual ressarcimento; e 2) se, entretanto, for declarada a inconstitucionalidade dos planos, as consequências serão graves e retirarão do poder do Estado graus de liberdade fundamentais para o exercício futuro da política econômica, o que será uma tragédia.

Num momento eleitoral que parece repetir 1994, PSDB e PT encontram-se, em 2014, numa situação antissimétrica curiosa. O PT foi o único partido que não entendeu a possibilidade de sucesso do Plano Real. Ignorou os avanços da teoria monetária e dos programas de combate à hiperinflação, desenvolvidos no plano israelense de 1984 (sobre o qual os economistas do Real eram particularmente bem informados através de seus professores). Apostou, na eleição de 1994 (FHC contra Lula), que ele fracassaria como os anteriores. Deu-se muito mal em 1994 e 1998!

Apesar dos avanços institucionais e de algumas contribuições importantes, como a Lei de Responsabilidade Fiscal, que, junto com a disciplina imposta aos bancos estaduais, foram decisivas para estabelecer alguma ordem nas finanças públicas da Federação, o Plano Real nunca terminou no que diz respeito ao equilíbrio fiscal. Em 2002, o baixo crescimento do PIB de 1995-2002 (2,3%) e a recusa do PSDB de defender com coragem o que tinha feito (por exemplo, o grande aumento da eficiência produtiva gerada pelas privatizações), facilitou a tarefa da urna de corrigir o economicismo do governo FHC, manifestado como "fadiga de material".

Lula venceu a eleição e construiu uma enorme inclusão social, o que teria sido impossível sem o sucesso da estabilização e sem o "vento de cauda" exterior. O mecanismo dessa inclusão, o uso universal do salário mínimo como indexador (e não o Bolsa Família), tem um preço: estressa cada vez mais, na margem, o crescimento do PIB, o equilíbrio fiscal, a taxa de inflação e o déficit em conta corrente.

A situação privilegiada da presidente Dilma no processo eleitoral em marcha mostra que, aparentemente, a "fadiga de material" não chegou ao ponto em que o jogo com a urna corrigirá os excessos do poder incumbente. Sendo assim - como parece - o objetivo de voltar a um crescimento mais robusto nos próximos anos só pode ser realizado com um aumento da produtividade física do trabalho superior à do salário real. Isso, com a simultânea redução da relação dívida bruta/PIB, da convergência da taxa de inflação à meta e o relativo equilíbrio nas transações correntes, construirá uma profunda confiança recíproca entre o governo e o setor empresarial privado para elevar os investimentos.

Exigirá, também, dos empresários a superação do entendimento que o legítimo objetivo governamental de "modicidade tarifária" não é um desejo de "lucro zero" e, do governo, que respeite os sinais alocativos do mercado em lugar de tentar substituí-los pelo voluntarismo.

De qualquer forma, é um pouco ridícula a disputa quase infantil que estamos assistindo sobre quem foi "melhor": os oito anos de FHC, os oito de Lula ou os três de Dilma. Cada um teve seus méritos e sua herança. O primeiro estabilizou, os segundos distribuíram. Do ponto de vista dos resultados objetivos, e não da propaganda, nivelam-se, com o crescimento no governo Dilma ficando, na margem, cada vez mais parecido com o de FHC.


A tabela abaixo revela esse fato. É por isso que para os recíprocos e calorosos autoelogios, tanto no PSDB quanto no PT, é preciso recomendar como fazia o professor Raimundo na sua célebre escolinha: "Menos, Batista, menos...".



Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.